quinta-feira, 23 de outubro de 2008

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Pela janela do escritório vejo um velho prédio devoluto.
Nas suas janelas escalavradas, dois pombos dançam, indiferentes ao salitre que os anos depositaram na parede e às feridas que os elementos escavaram na fachada. Perco-me no corrupio das plúmbeas penas e no seu terno arrulhar (que não ouço, mas adivinho) e a minha mente divaga.
No mais feio dos cenários, duas vidas evoluem. Indiferentes à poluição e ao som dos carros, e ao reboliço louco da cidade, duas vidas se entrelaçam e fazem ornitológicas juras. Duas vidas se transformam, sem contexto e sem paisagem, centrando-se apenas no essencial. Tudo feio e sujo em volta, e os pombinhos encontram o mood certo. Entregam-se naturalmente, na sua redoma idílica, artificialmente criada. E inclinam a cabeça em reverencial apreço.
Desvio o olhar, para não os incomodar...

Regresso ao meu lugar pensando que não deve ser de todo mau ser um pombo...

Fragrâncias de tempos passados povoam a minha mente, e num sorriso se esfumam. Olho para o céu e antevejo a lua prateada , a quem irei confiar minhas penas, mais logo, quando o céu se cobrir de negro.

2 comentários:

Zabour disse...

Apesar de não possuir a magnitude de um planeta, vou dar-te toda a luz que reflicto do Deus Sol para que os teus dias possam ser mais brilhantes e cheios de calor humano.

Beijo grande, minha linda jóia!

Vieira Calado disse...

"não deve ser de todo mau ser um pombo..."
Pois não!
Para esse efeito...


Bjs